Bel Coelho é uma chef brasileira que transformou a cozinha em espaço de ativismo político, defendendo ingredientes indígenas, soberania alimentar e justiça social na gastronomia. Seu trabalho vai além de receitas: questiona quem decide o que comemos, de onde vêm os ingredientes e quem lucra com a comida que chega à nossa mesa.

O que é gastronomia política

Gastronomia política entende a comida como parte de um sistema que envolve poder, economia e cultura. Escolher usar mandioca-brava em vez de batata importada, ou comprar direto de agricultores familiares em vez de grandes distribuidores, são decisões que carregam significado além do sabor. Como discutido em estudos sobre alimentação e sociedade (SciELO Books, alimentação e nutrição), a mesa reflete estruturas sociais e pode ser instrumento de transformação.

Bel Coelho aplica essa visão ao valorizar ingredientes que foram marginalizados durante séculos: tucupi, jambu, baru, castanha-de-cumbaru, palmito-juçara. Muitos desses alimentos fazem parte da tradição indígena brasileira, mas ficaram fora dos cardápios da gastronomia considerada “sofisticada” por décadas.

As causas que a chef defende

Soberania alimentar: o direito de povos e comunidades decidirem o que plantar, comer e comercializar, sem depender de cadeias controladas por grandes empresas. Segundo a Embrapa, o Brasil possui mais de 300 espécies de frutas nativas comestíveis, mas a maioria nunca chega às cidades (Embrapa, 2026).

Resgate de ingredientes indígenas: valorizar alimentos que sempre estiveram aqui, como o pequi, a pupunha e a taioba. Usar esses ingredientes em restaurantes e receitas é uma forma de reconhecer a contribuição dos povos originários para a culinária brasileira.

Sustentabilidade e agricultura familiar: comprar direto de quem planta, pagar preço justo e reduzir a distância entre roça e panela. Isso fortalece a economia local e diminui o impacto ambiental do transporte.

Justiça social na cozinha profissional: questionar quem são os chefs que ganham visibilidade, quem trabalha nas cozinhas (muitas vezes em condições precárias) e como a fama gastronômica ignora mulheres, negros e indígenas que sempre cozinharam.

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Como isso aparece na prática

Na cozinha de chefs como Bel Coelho, a política se manifesta no cardápio: pratos que usam ora-pro-nóbis (planta alimentícia não convencional, a PANC), caldos feitos com ossos e aparas em vez de descartar, e receitas que recuperam técnicas ancestrais de fermentação e conserva.

Também aparece nas parcerias: trabalhar com cooperativas de catadores de castanha, assentamentos da reforma agrária, ribeirinhos da Amazônia. O preço pago por esses ingredientes vai direto para quem colhe, não para intermediários.

E aparece no discurso: chefs que fazem gastronomia política falam abertamente sobre desigualdade, crise climática, e o papel da comida em manter ou romper estruturas de poder. Não é só cozinhar bem, é cozinhar com propósito.

Por que isso importa

A gastronomia brasileira ainda replica hierarquias coloniais: ingredientes europeus são “refinados”, técnicas francesas são “alta cozinha”, enquanto a mandioca e o feijão ficam no lugar do “simples”. Chefs que questionam isso abrem espaço para uma cozinha mais honesta com a nossa história e mais justa com quem produz comida.

Para quem cozinha em casa, essa visão se traduz em escolhas cotidianas: comprar na feira do bairro, experimentar uma fruta que nunca viu, perguntar de onde vem o que está no prato. Gastronomia política não é privilégio de restaurante caro, é entender que toda panela carrega escolhas e consequências.